Minha jornada no mestrado: da decisão à prova escrita

Desde 2015 eu pretendia entrar pro programa do mestrado em Comunicação da UERJ (PPGCOM), mas foi justamente quando comecei a rascunhar um projeto, que minha vida deu uma reviravolta e comecei a dar aulas de Yoga. Ainda não contei aqui no blog como tudo isso aconteceu, mas posso deixar pra um outro post. A questão é que eu simplesmente larguei tudo pro ar pra me dedicar a este novo lindo caminho: Yoga, autoconhecimento e uma bateria de cursos de formação e especialização.

No entanto, em 2017 comecei a sentir saudades do meio acadêmico. Uma amiga minha que é professora do mestrado em Letras de Juiz de Fora (gratidão eterna, Ju!) me perguntou sobre um artigo que eu tinha escrito e sugeriu uma coautoria de um novo artigo para uma publicação. Eu já estava meio balançada com a saudade do meio acadêmico, quando fui revirar as pastas, material, papelada e a vontade de voltar ressurgiu das cinzas. Depois de uns dias envolvida com o artigo, conversando com minha mãe lancei um “e se… por acaso… eu tentasse o mestrado este ano”, quando obtive como resposta um “te dou todo apoio, acho que deve fazer SIM”. Era o estímulo que eu precisava naquele momento!

Comecei a pensar na possibilidade mas achava algo muito distante. Era meados de Junho e a prova seria em Agosto. Pensei em tentar em 2017, mas estaria em desvantagem, pois começaria a estudar tudo já muito próximo da primeira etapa: a prova escrita. Claro que eu estaria em desvantagem, então pensei que apenas tentaria, sem a pretensão de realmente passar.

Mandei um email pra meu ex-professor-chefinho que me é muito querido (fui monitora e estagiária dele por 2 anos) e contei a ele meus planos, quando ele me recordou uma frase que sempre falava aos alunos do primeiro período:

Quando você diz que vai tentar, você já está contando com sua derrota. Não tente, passe!

Neste momento virou uma chave na minha cabeça: não vou tentar o mestrado este ano. Eu vou entrar. E pra que isso aconteça, terei que reorganizar toda minha vida como professora de yoga pra dar conta desse processo seletivo.

O edital já estava publicado. Imprimi e fui em busca dos 6 livros que teria que estudar num espaço de menos de 2 meses. Consegui comprar 5 deles e um só encontrei em PDF. Foi um investimento, e eu já estava com a mente dizendo que sim, eu iria passar. E de qualquer forma, seria bom comprá-los e tê-los em minha biblioteca pessoal, já que são livros que serão usados mais tarde em outras disciplinas ou na minha própria pesquisa. Minha mente já estava configurada no modo “já passei”.

A afirmação

Quem faz minhas aulas de yoga sabe que sempre falo de Sankalpa, que nada mais é que uma afirmação, um direcionamento de sua energia para algo muito importante para você. Seja algo a curto ou longo prazo, o importante é manter essa afirmação não apenas nas aulas e yoga, mas em qualquer momento que lembrar.

Na minha mente o “estou cursando o mestrado” agia como um mantra e para que isso se tornasse realidade, tive que tomar algumas decisões difíceis, porém importantes. É como dar um salto no escuro, mas precisamos ter essa coragem se queremos alçar novos voos.

De seis lugares onde eu dava aulas de yoga, saí de quatro.

Sim, eu simplesmente me desliguei de lugares dos quais gostava muito. Muitos colegas e alunos não compreenderam, mas eu evitei espalhar aos quatro ventos que estudaria pro mestrado, deixando claro que estaria entrando em uma nova fase da minha vida e que precisava fazer isso, e que quando a situação se ajustasse, eu voltaria. A verdade é que eu nunca mais voltei… a vida é feita de escolhas e desapegos.

O pré-projeto

O Sankalpa é muito importante. É como um direcionamento, mas como precisamos ter a certeza de que nada cairá do céu se não agirmos, após ter os livros em mãos e uma ideia do projeto, comecei a me organizar de modo a dar conta de tudo. A inscrição já exigia um pré-projeto, e a certeza de que estudaria algo ligado ao yoga me fez rabiscar muitos rascunhos em busca de um objeto.

Foram dias e dias pensando – até na hora do banho – como eu faria este projeto, até que tive uma ideia e comecei a escrever. Eu já tinha uma linha condutora de pesquisas em mídias digitais desde minha iniciação científica até minha especialização (Comunicação em Mídias Digitais), mas eu queria colocar o yoga no meio, só não sabia como…

Usei o Evernote e criei uma nota para cada tópico, e ali mesmo comecei a desenvolver a ideia central: estudar a relação dos iogues contemporâneos com seus livros tradicionais. Meu orientador trabalha com materialidade de livros e as mudanças de manuscrito para impressos, impressos para digitais, e como se dão as relações dos leitores em vários suportes e isso me pareceu uma ideia muito, mas muito brilhante e inovadora. Depois a gente percebe que não é tão brilhante assim, mas é melhor manter essa animação do pré-projeto, confie em mim.

Enfim, consegui desenvolver o pré-projeto e fiquei mais aliviada quando paguei a taxa e levei, pessoalmente, toda a documentação para a inscrição no processo seletivo. A coisa enfim, ficou séria e a ficha caiu.

Os estudos

Com a aprovação do pré-projeto e de toda documentação, considerei o primeiro passo dado. Para me organizar com as leituras, fiz um cronograma de quanto tempo restava até o dia da prova, deixando a última semana para uma revisão geral. Separei mais ou menos assim:

  • Semana 1: Livro X – Capítulos 1/2/3
  • Semana 2: Livro X – Capítulos 4/5/6

Sim, era tudo muito corrido mas eu tinha tempo livre. Tudo que eu precisava era apenas ler, estudar, rabiscar sem dó e me dedicar muito, mas muito mesmo! Sabia que não dava pra enrolar, afinal, os outros candidatos tinham uma boa vantagem sobre mim e eu teria que dar o melhor, garantindo uma boa nota na prova escrita para, caso fosse aprovada, ficar em uma boa colocação.

Se eu dei conta de todos os livros? Não. Uma semana fiquei muito gripada, portanto, meu rendimento não foi bom. De repente, um compromisso aqui, algo inesperado ali, e a programação que fiz começou a ir por água abaixo. Precisaria de uma nova tática, mas sem deixar os estudos de lado. Neste momento já era questão de honra: eu PRECISO ler tudo isso. Mas… será que eu precisaria ler TUDO mesmo?

Mudando a estratégia…

Uma coisa boa da internet é encontrar resenhas por aí. A ideia passou a ser, então, encontrar as resenhas dos livros que eu precisaria estudar e estudá-las, mas sem abandonar os livros. Separando as resenhas e artigos publicados que citavam estes livros, comecei a entender qual linha de raciocínio cada autor tinha. Pro meio acadêmico, precisamos sempre compreender mais do que o autor quer falar, mas quem ele é, com quem dialoga e qual o contexto.

Tudo foi ficando mais claro. Comecei a fazer meus resumos e os estudos começaram a fluir, pois ao pegar um novo livro, já sabia que tipo de pensamento tinha o autor e qual seu posicionamento em relação ao objeto de seus estudos. Mais pra frente vou escrever um post dando várias dicas sobre isso pra quem tiver interesse (se tiver, escreva nos comentários).

O dia da prova escrita

Cheguei no dia da prova ainda me sentindo um pouco em desvantagem. A sala, lotada. Muitas pessoas que nunca havia visto na vida, alguns conversando entre si, outros quietos num canto e uma colega minha, da graduação, sentou-se na minha frente. Demonstrava total segurança com a prova e com o conteúdo, dizendo que estava muito preparada e que era só escrever muito, usando muitos exemplos…

peraí… exemplos? Mas exemplos de quê?

A prova foi distribuída e olhei as perguntas. Sabe aquelas questões tão imensas que temos que primeiro entender o que, de fato, estão perguntando? Pois é. Respirei fundo e, como poderíamos escolher uma das opções, escolhi a que me levava a um autor que eu tinha mais afinidade. Comecei escrevendo palavras-chave na folha rascunho e desenvolvendo algumas frases de sua teoria. E escrevi… escrevi muito, a ponto do meu ombro começar a doer. Ah, a tendinite… a maldita tendinite deu as caras, justo naquele momento, na hora mais importante me fazendo ter leves fisgadas do ombro direito até minha mão…

Com o braço doendo, o tempo passando e a escrita sem fluidez – socorro, o que eu estava fazendo ali? – dei o melhor de mim. Sem exemplos, sem muito blábláblá. Escrevi de forma concisa – sabia que estava deixando muita coisa de lado – enquanto só via minha colega pedindo mais uma folha… e mais uma. Ok, ela passou e eu não, foi meu pensamento. Concluí a prova com a vista já trocando as letras e entreguei. Pronto, passou. Sei que não foi dessa vez, na próxima seleção, começarei a estudar com mais antecedência e organização.

Saí junto com minha colega. Ela, com várias folhas grampeadas. Eu, entregando uma única, escrita frente e verso. Ela, saindo animada por ter sido muito fácil e que ela conseguiu escrever TUDO, com vários exemplos (???), eu, cabisbaixa já pensando que nem sabia mais se queria passar por isso novamente.

Sete dias se passaram quando saiu o resultado: eu, aprovada com 8,30. Ela, infelizmente, reprovada.

Ali tudo ficou mais claro: é qualidade sobre quantidade. Não importa o quanto você saiba, o que importa mesmo, é a sua capacidade de ser conciso, de colocar seu conhecimento com clareza e lógica. Uau, eu havia passado na prova escrita, o próximo passo seria análise de Lattes e do Projeto de Pesquisa.

Naquele momento, apenas um pensamento vinha à minha mente: já que eu passei na primeira etapa, irei até o final.

E assim continuei minha jornada…

{Quer saber como foi a entrevista? Tem alguma dúvida sobre o processo seletivo? Deixe aqui nos comentários para que eu possa escrever a continuação respondendo algumas dúvidas de vocês!}

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9 comentários

  1. Ah, obrigada por compartilhar! Estou me preparando para ser aluna regular (nessa frase já apliquei o que aprendi no seu post e com seu professor). Atualmente sou aluna especial. Ler relatos assim me encorajam ainda mais a me organizar e estudar.
    Obrigada e quero saber mais!
    Obs: fiquei com vontade de fazer yoga com vc rs
    Bjão

  2. Muito legal seu relato! Quero saber tudo porque também estou pensando em um mestrado para o próximo ano numa federal. Obrigada

  3. Depois que comecei a entender minimalismo, percebi que minimalismo envolve tudo. Não só coisas, mas palavras, atos, escolhas, atitudes, textos… Qualquer coisa que você faça dá pra escolher entre ser sucinto, objetivo e pontual, ou divagar, distrair. E toda distração é resultado de algum medo.
    Fico muito feliz pela sua conquista, e agradeço por compartilhar sua experiencia.
    Você foi coerente nas menores e nas maiores escolhas, não só na hora da prova mas principalmente, na escolha de como encarar o processo, agindo de acordo com seus valores. Tenho certeza de que a recompensa maior foi essa! 🙂

    1. Minimalismo é pra vida, está em tudo. Não adianta termos poucas peças no armário, por exemplo, se nossa mente está transbordando. Menos geralmente é mais em todos os momentos. Obrigada pelo carinho! Continuarei compartilhando minhas experiências. <3

  4. Adorei seu relato! Bom demais ver alguém superando obstáculos, isso motiva. Continue nos contando tudo!!!

  5. Gosto muito das suas histórias, você escreve muito bem. e esse assunto me interessa particularmente, já que estou pensando em fazer um processo seletivo de mestrado também e estou bem perdida, mas agora confiante depois do seu mantra: eu já passei! Continue a nos agraciar com seus relatos.

  6. Oiii…
    Amo seus posts. Sigo vc no Instagram e estou sempre passando por aqui.
    Tenho em mente participar de um processo seletivo para o mestrado e, ler sua experiência, foi fundamental para aumentar essa vontade.
    Adorei as dicas!!
    Continue nos contando.
    Aguardando ansiosa por maiores detalhes.