Sobre o que eu não quero mais

Sobre o que não quero mais | Camile Carvalho

É isso, um ciclo da minha vida está chegando ao fim. Não vou dizer adeus para sempre, por respeito a tudo o que construí nesse tempo, mas acho que talvez caiba nessa situação um “até breve”, “te vejo no futuro”. A questão é que estou percebendo que meu ciclo com o Yoga e Hinduísmo precisa de um ponto final da forma como está sendo atualmente.

Passei muitos anos dedicada exclusivamente aos estudos, pesquisas pessoais, pesquisas acadêmicas, aulas, workshops, cursos ministrados, viagens à India e me joguei 100% em tudo relacionado aos estudos védicos. E o que sinto hoje é uma desmotivação imensa em relação a tudo isso, uma parede na minha frente, uma página em branco que não consigo preencher.

Fazer terapia tem me ajudado muito, desde que tive depressão no começo do ano. E, junto com a terapia, vem a cura de feridas abertas que graças a Deus já estão saradas, mas também uma revisão geral sobre a minha vida num todo. E então que os questionamentos chegaram no meu campo profissional: é isso mesmo o que quero? Estou feliz com isso? Ou no jeito Marie Kondo: isso me traz alegria?

E a resposta foi um tímido “não”. Isso não me traz mais alegria. A chama se apagou. Algo não está mais como antes e minha alegria em me dedicar 100% a isso murchou como uma flor esquecida em um jarro.

Eu lutei demais pra chegar até aqui. Não foi fácil conciliar o mestrado com viagens à India, com as minhas crises e ansiedade que me faziam parar na emergência do hospital. Não foi fácil ver o prazo de 20 dias pra entrega da minha dissertação quando ainda faltava 80% da escrita a ser feita. Não foi fácil enfrentar desafios em aprender a língua sânscrita para estudar os textos sagrados no original, de investir 7, 10, 15 mil reais em cursos de formação, desconstruir o Ayurveda, ir em busca de mestres no interior da Índia… nada disso foi fácil.

Nada disso foi fácil. Mas eu enfrentei tudo sozinha, sem ouvir as vozes que me diziam “vai com calma”, sem ouvir amigos e amigas me aconselhando a não ir tão fundo. Não foi fácil. Mas eu fiz.

Eu fiz pois tudo isso, na verdade, estava longe de ser uma estratégia de qualificação profissional. Tudo isso foi a minha busca pessoal. O meu caminho. Os meus passos na compreensão de algo muito maior. E, sinceramente, tenho certeza de que se fosse apenas por motivos profissionais, pensando em um retorno financeiro, eu não teria feito nem 10%.

Foi uma longa jornada, árdua, cheia de pedras no caminho. Muitas dores, resgates, espinhos. Muito néctar também, desfrutado em meio ao caos. Uma mistura de sensações, sentimentos, emoções. E então eu pensei que esse seria o meu caminho profissional, e fiz de tudo para que o que estava como um pano de fundo na minha vida fosse remanejado para a minha frente. E assim me assumi, tornei o que mais amava em uma profissão.

Mas não dá mais.

Neste momento estou revendo tudo da minha vida. Não tinha como escapar do meu campo profissional.

Eu sou comunicóloga. Tenho especialização e Comunicação em Mídias Digitais. Já trabalhei com fotografia, edição de vídeo, editoração eletrônica. Já tive um blog de sucesso (oi, Vida Minimalista!), já fiz parcerias com empresas bacanas e sustentáveis, já tive um canal no Youtube. Eu tenho outras facetas, outras habilidades que foram colocadas para debaixo do tapete pelo simples motivo de querer me dedicar 100% a algo que antes era apenas parte de mim, e que se tornou o meu todo.

Neste momento, tudo o que quero é me limpar dos rótulos que coloquei em mim mesma, de quebrar essas correntes imaginárias que estão apenas em minha mente e gritar ao mundo: oi! Eu quero voltar a escrever em blogs, quero falar sobre o que falava antes! Quero trazer motivação pras pessoas, quero falar sobre amenidades! Quero trabalhar revisando textos, editando vídeos, ensinando organização. Quero deixar que temas tão íntimos – que se tornaram meu trabalho – continuem aqui, guardadinhos comigo, no meu lar, na minha intimidade.

Foi um erro pegar o que havia de mais precioso e tornar isso o meu trabalho? Não, não foi. Eu puxei o máximo que pude para ver até onde eu era capaz e me surpreendi comigo mesma. Acontece que não preciso mais fazer isso, nem comigo, nem com ninguém. Não há nada mais a ser provado. Eu sou isso. Eu pesquiso os mistérios, acesso conhecimentos secretos, esquecidos, em línguas antigas. Eu percebo que tudo o que vendem em nome do Yoga, do Ayurveda, das ciências védicas em geral não passam de superficialidades moldadas para mentes ocidentais. E acreditem, ninguém quer saber das coisas como são no original. É mais fácil e palatável acreditar nas bobeirinhas nova-era que são inventadas.

Eu não sou a pessoa que vai lutar contra isso.

Hoje eu só quero paz. E voltar a escrever no meu blog, falar de amenidades e ajudar pessoas a enxergarem o potencial que reside nelas mesmas.

Hoje eu só quero destralhar minhas gavetas, compartilhar inspirações da vida e clicar no botão ‘publicar’.

Hoje eu encerro um ciclo, podendo ser por um mês, podendo ser para sempre. Mas eu precisava dizer a mim mesma que no momento, eu não quero mais.

Que possamos caminhar juntos nessa nova fase. Vamos destralhar?

Estamos todos interligados

Eu não consigo simplesmente ler um livro superficialmente. Sou daquelas que precisa estudar, anotar, grifar, colar post-its e ainda revisar, fazendo minhas próprias anotações, tanto no livro quanto em algum outro lugar. Acredito que cada vez que folheio um livro lido, meu olhar é diferente e aprendo algo novo. Uma releitura nunca será igual à anterior, pois eu já não sou mais a mesma.

Neste momento estou relendo – e devorando – Como Transformar a Sua Vida, de Gen Kelsang Gyatso, da Nova Tradição Kadampa de Budismo. Senti, na minha jornada espiritual, que havia chegado o momento de “subir as montanhas”, como eu mesma classifiquei, que na prática significa fazer uma imersão nas tradições espirituais do Tibet, Nepal, ou seja, fazer uma imersão nas tradições dos povos dos Himalayas. Não se esqueçam, o Yoga está presente em muitas tradições, não é restrito à India e nem ao Hinduísmo, pois permeia muitos povos, culturas e religiões diferentes, incluindo o Budismo.

Há um trecho do livro que me trouxe um insight, uma realização muito importante:

“Tudo que temos e tudo do que desfrutamos, inclusive nossa própria vida, deve-se à bondade dos outros. De fato, toda a felicidade que existe no mundo surge como resultado da bondade dos outros.”

Aqui ele aponta que tudo que temos na nossa vida foi feito ou facilitado por uma outra pessoa. Pense comigo, a água que você bebe, a comida que você come, a comida delivery que você pede e recebe em sua porta, a casa onde mora… tudo, absolutamente TUDO tem ou teve uma ou mais pessoas envolvidas. Somos uma grande teia, todos estamos interligados. Tudo o que temos, a vida que vivemos, o celular que você tem em mãos agora, tudo tem ligação com o outro.

Isso significa que uma outra pessoa reservou um tempo em sua vida para se dedicar a você, mesmo que não te conheça.

Uma semana sem perder tempo no Instagram

A ansiedade, a impulsividade e o feed que nunca acabava

Foi num final de semana que percebi que estava com ansiedade. Rolava o feed do instagram buscando algo que eu nunca encontrava. Por minutos. Horas. Quando percebi que estava com um comportamento em relação às redes sociais que não estava me fazendo bem mas eu nada conseguia fazer pra mudar.

Eu estava presa, amarrada naquilo, com a ligeira impressão de que a próxima foto do feed alheio me traria alegria, o que nunca acontecia.

A verdade é que EU não estava bem e qualquer coisa que aparecesse na minha frente jamais seria a causa de uma felicidade repentina.

Encontrei perdido no meu iPad o livro Minimalismo Digital, que havia abandonado há um ano. Recomecei a leitura e, à medida que eu lia e revisitava minhas anotações, eu percebia que aquilo tudo que o autor Cal Newport relatava, fazia muito sentido pra mim.

O medo de perder algo importante (FOMO), a sensação de que vou encontrar algo bom se continuar rolando o feed, o falso pertencimento… e então, enquanto lia o livro, mais uma notificação me tirava da leitura e me fazia mergulhar num labirinto sem fim nas redes sociais.

Mas, o que eu estava fazendo mesmo?

Ah, sim! Lendo aquele livro…

Quando me desobriguei a postar no Instagram por uma semana

Julho de 2021, após finalmente ter concluído o livro, eu já me sentia melhor em relação às redes sociais. A ansiedade já estava controlada e eu mal pegava o meu celular durante o dia pra checar o feed. Mas algo me instigava a pesquisar mais sobre Minimalismo Digital, Mindfulness, concentração, saúde mental na internet em tempos de pandemia… e então, conseguindo respirar bem e com um olhar sereno, decidi me desobrigar a postar qualquer coisa no meu instagram por uma semana.

Não era um super desafio, visto que eu já não estava com aquela ansiedade do início do ano, mas ainda assim iria me tirar do lugar de conforto. Não me proibi de nada, não deletei nenhum ícone ou conta em redes sociais, apenas avisei que ficaria 1 semana meio offline pra meditações, reflexões, paz mental. E que estava tudo bem. E sim, sinceramente, eu estava bem.

A ideia era ficar de segunda a sexta usando a rede social de forma mais controlada e atenta. Observar meus passos e o que me levava aos comportamentos compulsivos, como abrir a rede social ao menor sinal de pausa no que eu estava fazendo. Eu queria ser o objeto da minha própria experimentação, me conhecer, entender os principais gatilhos que me faziam rolar o feed infinitamente.

E então eu fui desapegando, quase sem perceber. De vez em quando eu abria o Instagram, via os stories de algumas pessoas. Às vezes um assunto interessante, às vezes nada novo, apenas fotos aleatórias.

Pessoas trabalhando. Pessoas viajando. Pessoas respondendo perguntas. E então eu deixava o celular de lado. Está bom por hoje, nada novo.

Quando me comprometi a ficar de segunda a sexta sem o compromisso de produzir conteúdo, me conhecendo bem eu sabia que falharia no meio do caminho, talvez até mesmo antes de quarta. Mas, quando sexta feira chegou, eu quis prorrogar pra 7 dias, então voltaria na segunda. Mas, quando segunda chegou, eu não tinha assunto. Não havia elaborado ainda um post de “olha só, eu voltei” e nem sequer havia escrito sobre minha experiência. Eu simplesmente me desliguei de tudo isso.

Acabou o desafio? Acabou e eu nem vi…

E aqui estou, na terça-feira próximo à meia noite, escrevendo esse relato sobre minha experiência porque decidi que voltarei a postar. Voltarei a usar o meu instagram. Sendo que, sinceramente, acho que meu comportamento em relação às redes sociais vai mudar.

Nesse meio tempo li bastante livros sobre Budismo, comportamento humano e artigos científicos sobre Minimalismo Digital e saúde mental. Ideias pipocaram na minha mente quando fiz Mapas Mentais no papel com minhas canetas coloridas. Repensei minha vida acadêmica, temas para pesquisa e nem a minha espiritualidade foi poupada. Percebi que minhas certezas estavam fundamentadas em castelos de areia e que, não há nada de errado em simplesmente buscar uma base mais sólida.

Em uma semana ocorreu uma reviravolta na minha vida e, claro, não foi apenas por causa da pausa nas redes sociais, mas porque abri espaço pra pensar, refletir, indagar, falar comigo mesma, em vez de rolar o feed continuamente.

E assim acho que novamente embarco nos trilhos do minimalismo, do essencialismo, do mínimo viável para que eu possa viver em paz, com saúde mental, concentração e foco no que realmente é importante.

A partir de agora se inicia uma nova era na minha vida. Resgatando partes de mim que ficaram no passado, reconstruindo a imagem que tenho de mim mesma e tendo mais clareza sobre como quero ser vista e o que quero fazer nas redes sociais.

O mais importante é que quero usar as ferramentas que a internet proporciona ao invés de deixá-las que me usem e escorrer por seus ralos enquanto rolo o feed continuamente.