Natal de 2024

 

Na semana entre o Natal e Ano Novo, costumo passar com os meus pais. Tiro essa semana pra me desligar completamente de tudo e focar em coisas diferentes, ainda que mantenha o meu hábito de escrever, planejar, mas sempre abrindo a possibilidade de novas ideias chegarem. É como uma semana fora do calendário: saio da rotina, experimento coisas novas, escrevo sobre assuntos diferentes, me permito sair do quadradinho.

Escondidinho

Como única vegetariana na casa, costumamos fazer, além das comidas tradicionais que eles gostam, um prato sem carnes, que vai por minha conta. Dessa vez fiz uma espécie de escondidinho (ou escondidão) de batata recheada com proteína de soja, substituindo a carne moída. O gratinado ficou por conta do queijo derretido com parmesão ralado. Essa é daquelas comidas que como na noite do Natal, no dia seguinte e até quando acabar a travessa. Acho que acaba hoje, já que não estou me contendo com pequenos pedaços.

Na noite de natal peguei minhas Mandalas Lunares, tanto de 2024 quanto a de 2025, pois sim, precisei trazer ambas pra virada do ano, fazendo mais peso na minha mochila, mas tudo bem, prioridades, não é mesmo?

Folheei a deste ano, relembrei algumas memórias, tanto boas quanto dolorosas, vi fotografias e me diverti, orgulhosa de ter mantido, por mais um ano, os registros dos meus momentos. Desde que voltei a escrever no papel tenho percebido que a Mandala Lunar é o melhor suporte pra essas memórias, já que ela segue o calendário Lunar em vez do Solar, o que combina muito mais comigo que sigo as estações do ano, fases da lua e outros marcos da natureza pro meu autoconhecimento e espiritualidade.

Jardim

Uma coisa que nunca comentei é que temos, desde o começo do ano (2024) um terreno para onde vamos sempre que estou por aqui, na casa dos meus pais. É bem pertinho de onde estamos e costumamos passar a manhã, ou a tarde, fazendo melhorias, plantando e cuidando das plantas, arrumando pra, quem sabe, construirmos no futuro.

A primeira coisa que decidimos fazer foi o muro, pra podermos deixar o Teddy correr livremente. Infelizmente ele aproveitou muito pouco antes de tudo que aconteceu, mas o Theo, irmãozinho do Teddy que agora está conosco, adorou o fato do mato ter crescido após os últimos dias chuvosos.

Meu pai, enquanto molhava as plantas com a mangueira, jogava água na direção dele que aprendeu a pular no ar tentando morder a água. A brincadeira foi tão boa e refrescante que pretendemos fazer sempre, assim ele não fica com tanto calor como tem feito esses dias.

Viramos a noite de Natal nós quatro mesmo, como sempre tem sido: eu, pai, mãe e Theo, que dormiu antes da ceia. Algo que acho muito bonitinho nele é o fato dele ser super independente: quando bate o sono e a vontade de dormir, ele se retira e vai pro quarto, sozinho, se enfia debaixo do edredom e não quer mais saber de ninguém.

Tivemos a ideia de (re)assistirmos o show do Michael Flatley – Feet of Flames, que eu tanto amo! Fazia alguns anos que eu não assistia e foi muito bom perceber nuances da dança, da coordenação e da narrativa do show depois de alguns anos. Sempre que reassisto algo, tento buscar o que dessa vez eu percebi que não havia notado anteriormente. Isso acontece também com Interestellar, filme que parei de contar na 15ª vez. Sim, meu hiperfoco em astronautica, astronomia e exploração espacial está mais on que nunca. 🙂

Já no dia 25, resolvemos assistir a um show dos Beach Boys, por sugestão da minha mãe. Quando encontramos no Youtube um show mais recente deles e demos play, a luz de Itaipuaçu acabou e foi um caos. Calor, muriçocas e celulares quase descarregados. Decidimos então dormir, pois não havia mais o que fazer, apenas aproveitar os últimos suspiros da bateria do celular com a tela diante dos olhos até o sono chegar, o que foi bem difícil devido ao calor. Finalmente a energia voltou por volta das 3h da manhã e pude ter meu sono tão merecido.

Esses dias têm sido bastante chuvosos, exceto aquela manhã do dia 25 quando fomos ao terreno. Sigo curtindo a tranquilidade da cidade pequena, sentindo o cheiro da chuva, curtindo os dias com meus pais e claro, comendo muitos quitutes do Natal e me preparando pra emendar com o Ano Novo. Aliás, aqui em casa nós comemoramos o fim de ano desde o dia 18 de dezembro, aniversário da minha mãe até 4 de janeiro, aniversário do meu pai. Uma pena não podermos prorrogar até 18 de abril, acho que aí seria demais.

Planner da Camile Carvalho - Blog Camilando

Bem, que delícia escrever assim, pra mim mesma. Quero, no futuro, ler esses textos, ver essas fotos, como um diário mesmo. Eu sinto que aqui escrevo pra mim, embora eu tenha um “querido diário”, meu interlocutor, que são vocês. Mas há uma diferença enorme daquela pressão da produção de conteúdo pra Instagram, cheio de regras de marketing, de como viralizar conteúdo, de como ter mais alcance… lá, eu sentia como se tivesse competindo por atenção (e na verdade estamos mesmo, né!).

Aqui, sinto como se vocês fossem meus queridos convidados, com os quais tomo um chá e bato um papo nos comentários. Sinto-me mais confortável também em contar detalhes da minha vida, mas sem uma superexposição. Parece que eu sei bem o limite, pois sempre havia feito exatamente assim. Aliás, escrevi um esboço de uma reflexão sobre isso e pretendo depois, com calma, elaborar melhor em um post.

O Blog Camilando voltou! :)

Foto dos primórdios do Blog Camilando, em 2011

Pois é, eu falei que o solstício de verão havia mexido comigo e me deixado nostálgica. Resmunguei no último post sobre não me sentir tão à vontade com o rumo que as redes sociais estavam indo, sinto uma constante agonia, como uma vontade de me expressar, compartilhar aleatoriedades, fotografias, memórias, pra que eu mesma possa navegar e relembrar dos momentos da minha vida.

Veja bem, eu comecei a blogar muito cedo, se bem me recordo, foi em 1999, quando estava no ensino médio. Naquela época as ferramentas de blog ainda eram muito escassas, e eu me lembro de usar um site chamado Geocities (acho que foi antes de 2000) e depois o kit.net, pra criar uma espécie de site dos amigos da escola com nossas fotos, nossos encontros.

Depois surgiu a ideia do blog e lembro como se fosse hoje criar o meu primeiro no site Weblogger. Tudo era muito rústico: fazer upload de um gif demorava muito tempo, por conta da internet discada. Não tínhamos um lugar específico pra fazer upload de imagens no blog, tínhamos que usar um servidor paralelo, copiar o endereço do link e escrever o html na unha mesmo, pra linkar aquela imagem de um canto pra dentro do post. Fiz curso de HTML e CSS, pra poder arrumar meu blog do jeitinho que eu queria, com os cursores piscantes e fogos na tela, sem contar com a musiquinha que tocava ao entrar na página. Sinto saudades!

Descobrir blogs amigos era bem difícil. Não tínhamos as redes sociais, mas tínhamos os bate-papos. Lembro-me que eu usava bastante o Chat da UOL, mas depois aprendi a mexer no IRC, e depois no mIRC. Tínhamos listas de email do Yahoo e por esses cantos conseguíamos descobrir novos blogs. Era muito comum, em cada um deles, ter uma sessão de “Blogroll”, como eu fiz questão de colocar aqui. Ler cada um deles no fim de semana (pois a conexão da internet pagava apenas um pulso telefônico) era um momento esperado.

Pois é, eu falei que ando saudosista. E também ando empolgada com isso aqui. Mas há algo sobre esse nome Camilando.

Quando os serviços de blogs melhoraram um pouco, com a chegada do Google, criei uma conta no Blogspot e abri o Blog Camilando em 2011. Segui com ele por um longo tempo, até comprar o  domínio com meu nome e de começar um outro projeto do zero, o Vida Minimalista, em 2012. Pra falar a verdade, o Camilando era muito mais antigo, pois eu já usava esse nome naqueles outros sites, embora ele tenha se firmado mesmo em 2011, pelo que mostra o meu backup que só vai até esta data.

O banner lateral do blog, eu e minha Lomo rosa <3 (2012)

Em um momento eu acabei desistindo, mudei de rumo, e o Camilando foi ficando pra trás. E eis que, em pleno 2024-2025, no solstício de verão, eu decidi que queria um espaço mais livre pra escrever meus textos, como antigamente. É um movimento nostálgico assim como qualquer outro. Há pessoas que voltam a escutar suas músicas na vitrola, outras voltam a escrever no papel (eu também), cada um vai buscando se encontrar em meio a essa enxurrada agoniante de informações da internet. Eu, no contrafluxo, não conseguia mais sentir a espontaneidade do Instagram. Parece que ficou um lugar mais rígido, sem aquela leveza de antigamente. 

Eu precisava de um canto, mas sem usar o meu nome como usava o blog Camile Carvalho. Não sei explicar, mas eu faço doutorado, tenho artigos publicados, um lado meu mais “sério”, que não combina tanto com o despejo criativo paralelo que estava precisando fazer. Então eu coloquei na minha cabeça que voltaria a ter um blog, como era o Camilando.

Não sei se vocês me conhecem com profundidade, mas quando eu coloco algo na cabeça, eu tenho que fazer imediatamente, mesmo que eu vague pela madrugada adentro com aquela fixação do hiperfoco, e foi exatamente o que eu fiz. Primeiro, eu deveria criar um nome pro blog, certo? Certo. Mas minha curiosidade me fez digitar camilando.com no Hostgator, quando, pra minha surpresa, o domínio estava novamente livre. O meu domínio das antigas, o meu Camilando desde tempos imemoriais!

Banner do blog de 2011

Ariana que sou, cliquei em comprar domínio no mesmo momento, e então uma porta mágica se abriu. Se antes eu estava nostálgica, agora então eu estava mergulhada nas memórias do passado. Aproveitei o tempo chuvoso do Rio de Janeiro próximo ao Natal pra grudar o rosto na tela e passar tudo que eu tinha de backup pro Camilando, arrumar layout, criar uma nova identidade visual mais aconchegante, como eu estou me sentindo no momento. Eu ainda preciso ajustar muitos detalhes de links quebrados, imagens que sumiram, mas eu me sinto tão feliz em ter esse cantinho novamente, pra expressar tudo o que eu quiser, pra ser o meu diário, sem nicho, sem nenhuma preocupação de likes, engajamento ou algoritmos. Aqui terá o meu ritmo.

Pra variar, acho que já escrevi demais, então vou ficando por aqui. Era pra ser um post de boas-vindas novamente ao Camilando e pra explicar que, na verdade, nada disso é novidade, mas sim meu retorno ao ponto inicial, como tudo começou pra mim na internet. 

Eu estou aliviada em ter esse lugar-seguro novamente. E quero me conectar com pessoas que também mantêm seus blogs até hoje, mesmo que com poucas atualizações. 

Que vocês tenham um lindo e abençoado Natal, e que nunca desistam de buscar aquilo que te traz paz.

Camile

Solstício de Verão de 2024

 

Hoje celebramos o solstício de verão, o dia mais longo do ano. Um momento de renovação, um marco que realmente sempre fez sentido pra mim – muito mais que a virada do ano de 31 de dezembro pra 1º de janeiro, sendo muito sincera.

O dia mais longo do ano significa que o sol esteve presente por mais tempo, atingiu o seu ápice e, logo após esse momento, começa a decair, tornando os dias cada vez mais curtos, rumo ao inverno.

Nas culturas antigas, o Solstício de Verão é celebrado como o apogeu do Rei Sol, ao mesmo tempo em que é sua despedida para seu recolhimento, introspecção (outono) e em seguida, período de latência (inverno). Como nossas referências são muito baseadas nas culturas do Hemisfério Norte, este momento, lá, ocorre no meio do ano, enquanto que agora eles estão celebrando o Solstício de Inverno, que tem um significado oposto: em meio à latência e dormência do Rei Sol, hoje ele desperta e volta a reinar, motivo pelo qual em muitas culturas, mitologias e religiões, é neste período em que se comemora o nascimento de deus.

Mas, voltando ao hemisfério Sul, aqui celebramos o início do Verão. Mas vocês já pararam pra pensar que, se hoje é o ápice do reinado do sol, com os dias mais longos e que, a partir de amanhã já caminhamos rumo ao inverno, nós já vivemos várias semanas com o sol presente em nossos dias (e, principalmente, com o calor)?

De qualquer forma, hoje é um dia interessante. Para quem acredita, é um bom momento para revisar o ano, fazer novos planejamentos, escrever as intenções pro próximo ciclo (em vez de esperar a virada de 2024 para 2025, uma data civil), e se conectar com os ritmos da natureza, caso tenha havido uma desconexão em meio a tantos compromissos do cotidiano. Sentar-se, fechar os olhos e respirar. Sentir. Afinal, o que meu corpo está sentindo? O que, aqui no fundo, está acontecendo? Estou satisfeita com a direção da minha vida? O que eu posso fazer para melhorar?

Sei que a maioria das pessoas tem esse marco na virada do ano, e tudo bem! O importante é ter esse momento de reflexão, revisão e pausa para pensar em si. Mas sei também que muitas outras pessoas preferem outros marcos na roda do ano, outros marcos litúrgicos de acordo com suas crenças pessoais. Para mim, o que funciona mesmo, é sentir a passagem das estações do ano, ainda que aqui no Brasil (principalmente no Rio de Janeiro), não tenhamos as estações bem-definidas.

Depois de um dia de reconexão comigo mesma, de retomar coisas abandonadas no meio do caminho (oi, Índia!), de deixar de lado outras coisas que estavam me incomodando, ou atrapalhando um pouco a dinâmica do meu cotidiano em relação ao foco no que realmente importa, estou feliz em conseguir perceber, sentir e me reconectar com ritmos que estavam pulsando aqui dentro, mas que eu não estava exteriorizando por não compreender completamente. Acredito que nesses momentos, precisamos pausar e escutar aquela voz que está sussurrando em nosso ouvido, ou até mesmo gritando, mas que devido ao barulho externo sequer nos damos conta.

Que venha esse novo ciclo!

Agora me conta: você sente esses marcos temporais ao longo do ano mais relacionados ao calendário gregoriano, como a virada do ano, ou mais ligados aos ciclos da natureza? Quero saber um pouco mais sobre você!

obs.: estou pensando seriamente em fazer umas mudanças no blog. A princípio pensei em mudar o layout, a identidade visual… mas agora já estou pensando mesmo em mudar… de blog! Aguardem atualizações (ou não, pode ser que eu desista). 🙂

Tomei uma decisão quanto ao meu doutorado

Tomei uma decisão quanto ao meu doutorado | Vida Minimalista por Camile Carvalho

Eis que estou aqui novamente. Cada vez que abro o FocusWriter, me ajusto na cadeira, alinho a coluna e me ponho a escrever livremente, como um despejo mental. Eu sei que o momento da escrita do blog é um momento especial há uns 15 anos e é incrível como eu entro no mood em apenas alguns segundos.

Hoje vim contar a vocês sobre um momento de virada na minha vida. Sim, mais uma transformação está vindo aí, mas embora eu esteja ainda no meio de tudo isso, posso garantir a vocês que tem sido incrível experienciar – com um sorriso no rosto – o início de uma fase da minha vida que já estava batendo na porta, mas eu apenas não queria abri-la com medo…

Ah, o medo…

Estamos sempre seguros de si, achando que é melhor não arriscarmos algo diferente pois temos as nossas certezas, nossas identidades, nossas seguranças. Mas o que é seguro, afinal? Compartilho com vocês que já vinha ensaiando alguns passos de volta ao minimalismo, embora usar esse rótulo exaustivamente no passado tenha me cansado um pouco. Pra quem está chegando agora, eu explico: em 2010 eu criei um blog chamado Vida Minimalista e escrevi nele até 2019, quando passei a usar o meu nome. No entanto, embora eu tenha abandonado o rótulo, eu sempre mantive meus princípios e meu comportamento condizente com o que eu sempre escrevi no blog e compartilhei nas minhas redes sociais.

Hoje eu me vejo pronta pra recomeçar. Aliás, o movimento que estou vivenciando é mais do que isso: eu me sinto pronta pra abandonar uma parte imensa da minha imagem na internet, da minha identidade digital e profissional. Após um silêncio e um recolhimento introspectivo, percebi que algumas coisas em mim já não funcionavam como antigamente.

Depois da pandemia eu tentei resgatar cada pedacinho da minha identidade, a fim de testar, um por um, o que ainda fazia sentido pra mim. Naquele período caótico eu cheguei ao ponto de não saber mais quem eu era, do que eu gostava e como as pessoas me viam. A única solução ao sair da caverna foi resgatar o que sobrou de mim, passar por testes extremamente pessoais e refletir muito sobre minha vida num âmbito geral. Então, decidi me despedir de uma parte de mim que estava mais pesando do que me fazendo progredir, o que me fez sentir mais leve e pronta pra novas aventuras.

Eu tenho públicos diferentes que leem o meu blog: tenho aquelas pessoas desde o blog Vida Minimalista, que conhecem aquela Camile que fala sobre vida digital, organização, produtividade, minimalismo, slow living e tudo relacionado. Mas também tem aquelas pessoas que chegaram na minha vida na época em que eu dava aulas de Yoga que estava na Índia em 2019, que fazia mestrado e pesquisava sobre a digitalização das escrituras sagradas em sânscrito. Esse público sempre me respeitou demais e recebi muito carinho de todos, até que veio a pandemia e tudo ao redor congelou, como quando damos pausa em um vídeo.

Quando as coisas voltaram ao normal, eu precisei dar “play” novamente. Segui na minha carreira acadêmica fazendo o processo seletivo pro doutorado e passei, com um projeto ainda no campo da Indologia, pra pesquisar sobre oralidade indiana. As aulas começaram, os artigos bateram na porta, mas eu sentia um desencaixe enorme na busca de sentir novamente o que eu sentia durante o meu mestrado. A verdade, minha gente, é que eu nunca mais senti.

Imaginem o quanto isso me angustiava! Eu estava ali, cursando o primeiro ano do doutorado e precisava entrar no mood de 2019. Precisava resgatar a Camile da Índia, empolgada com os estudos indianos, que liderava grupos de pesquisa sobre o assunto, que fazia cursos de sânscrito e dormia de madrugada conversando com os indianos e fazendo entrevistas e comprando passagens pra Delhi. Mas tudo o que eu tinha agora era uma preguiça imensa só de imaginar que eu teria que fazer tudo isso de novo… e eu não queria enxergar que essa fase da minha pesquisa um dia chegaria. Era como se eu estivesse evitando o fato de não estar mais conectada com isso, a nível de pesquisadora, ou até mesmo de vivência pessoal e espiritual. Então pensei na possibilidade de facilitar as coisas. De ajustar minha pesquisa pra não ter que lidar tanto com isso… e foi aí que eu precisei ter uma conversa séria comigo mesma.

Eu não quero mais isso. O doutorado está sendo um peso pra mim, não por causa das aulas, que eu adoro. Não por causa dos grupos de pesquisa, que eu gosto tanto. Mas por causa da minha pesquisa. Ora, como é possível eu pesquisar algo que eu mesma escolhi se eu não me sinto com a mínima vontade de adentrar nesse tema? Algo estava muito, mas muito errado.

Em busca de respostas

Quando eu preciso de clareza mental eu já tenho um ritual: me desligo das redes sociais (estímulos externos e vozes alheias), faço uma limpeza digital, deixo de seguir muita gente, limpo meus emails, organizo meus arquivos e passo pro físico. Começo pelo guarda-roupas, tirando as roupas que eu não quero mais, revivendo algumas esquecidas e me vestindo, vendo como eu fico com aquelas peças do fundo da gaveta. Faço uma faxina, organizo os potes da cozinha, limpo a geladeira, faço compras mais saudáveis. Faço caminhadas no silêncio, sem fone de ouvido e levo um caderninho pra escrever meus pensamentos. E enquanto limpo, lavo roupa, organizo os livros, converso comigo mesma.

“E se…?”

E se eu fizesse de tal forma? E se fosse diferente? E se eu tivesse a coragem de chutar o balde e mudar tudo? Quem eu sou? O que eu já estudei? Quais as minhas qualificações? Meus cursos, minha especialização? O que faz vibrar meu peito quando eu falo sobre o assunto? O que eu mais tenho consumido ultimamente na internet, youtube, Reddit? Com qual fenômeno atual eu estou mais engajada? O que me faz ler sem pensar no tempo?

Foram muitas perguntas, mas todas elas apontavam para uma direção totalmente diferente do que eu estava indo, mas incrivelmente (re)conectadas com o que eu pausei lá no passado. As mídias digitais. A cultura digital. O minimalismo, o slow living, o foco e a atenção roubados nesse meio muito louco de internet e redes sociais. “E se…?”

Preciso tomar uma decisão

Por um minuto me imaginei tomando a decisão de mudar toda a minha pesquisa do doutorado e apontar para uma nova direção. E foi o minuto mais longo e feliz que eu passei, me fazendo sorrir e relaxar os meus ombros. O nosso corpo fala o tempo todo com a gente e só precisamos pausar, silenciar e escutá-lo.

Se antes eu estava completamente desanimada, agora eu estou tão empolgada que já rascunhei alguns artigos e tudo avançou em uma semana o que em meses estava estagnado. E o melhor, minha nova ideia é totalmente possível e compatível.

Eu tenho algumas ideias futuras de estudos e qualificações e sentia, o tempo todo, que o caminho que eu estava direcionando não era compatível com o que talvez eu quisesse. Eu sou muito tecnológica, queria mergulhar mais nisso, quem sabe até estudar programação… mas eu estava mais pro lado da Teologia, Ciências da Religião, Antropologia… Eu decidi inverter o jogo. Ainda não é definitivo pois preciso reajustar meu projeto. Mas vocês não imaginam o quanto isso me empolga, a ponto de pegar qualquer tempo livre do meu dia só pra me debruçar sobre o novo tema da minha pesquisa.

Nunca é tarde!

Compartilho isso com vocês, pois acredito que nunca é tarde pra mudarmos a direção de algo que já não combina mais conosco. Aliás, acredito que o quanto antes fizermos essa conversão, melhor, pois conforme o tempo passa, fica mais difícil. Então eu te pergunto: tem algo te angustiando em alguma área da sua vida? Você consegue refletir sobre isso e pensar em alternativas, mesmo que seja um pouco trabalhoso de fazer as mudanças necessárias? Como você se sente ao imaginar-se fazendo isso de forma diferente? O corpo fala. O corpo sente. O racional tem que atuar junto, claro, mas fica nítido quando não estamos mais vibrando junto com a decisão que tomamos lá atrás.

Até breve, Índia. Você ficará num cantinho especial no meu coração, na minha memória e nos meus hobbies. Mas deixo você ir embora da minha vida acadêmica pra outros estudos poderem ganhar espaço e poderem crescer a partir de agora.

Um retorno ao Minimalismo Digital?

Um retorno ao minimalismo digita - Vida Minimalista - Camile Carvalho

Pois é, a última vez que eu vim aqui dizer que havia voltado ao blog foi em maio. Estamos em Setembro de 2024 e desde então eu ensaio um texto, me repreendo tanto por não ter mantido a frequência mas também por pensar em textos sem sentido. Mas hoje eu resolvi aparecer. Na verdade, eu apenas abri o editor de texto que uso desde o início de tudo, o FocusWriter e coloquei pra tocar um CD que me coloca no modo blogueira.

Eu não sei se vocês também são assim, mas eu preciso entrar no Mood. Aliás, esse é um dos temas que ando estudando no Doutorado, como criamos, por meio da música e de diferentes sons, um ambiente capaz de preencher tudo o que nos cerca nos fazendo vivenciar sensações, emoções e evocar sentimentos específicos. Mas já vou adiantando que esse texto não tem um foco, apenas um fluir das teclas dentro do Mood-blogueira que desde, sei lá, 2010 me acompanha.

A papelada na minha vida

Desde o ano passado eu decidi voltar ao papel. Tenho usado planners, agendas, diários, me aventurei no universo do Bullet Journal, mas algo ainda me incomoda. Eu não sei vocês, mas a impressão que me dá é a de que o papel me deixa num estado constante de ansiedade, como um devir, um algo que está pra acontecer mas que não acontece. É como se eu ainda não tivesse escolhido o caderno perfeito, ou o fichário adequado. Como se meu planner não tivesse tudo que eu preciso e que tem coisas demais que eu não uso. Nada está perfeito, ainda, e a impressão é a de que em um determinado momento, encontrarei a serenidade do papel e assim seguirei adiante, sem fazer mais nenhuma alteração. Mas eu sei que isso tudo é uma ilusão.

Quando eu estava no momento Paperless da minha vida, e inclusive escrevi sobre isso aqui, quando este blog ainda era o Vida Minimalista, eu senti que estava caminhando em direção a uma paz mental imensa. Escaneei muitos documentos com a função digitalizadora do Evernote, rasguei papeladas e papeladas.. doei fichários, joguei fora cadernos. Minha escrivaninha, que estava sempre amontoada de papeis, começou a encontrar espaço livre, que eu desejava nunca mais ocupar com outras papeladas como estava antes. Quanto mais eu mandava papeis pra reciclagem, mais eu sentia serenidade, como se eu, enfim, conseguisse voltar a respirar novamente.

Todo esse processo também refletiu no digital. Enquanto eu digitalizava a minha vida, também comecei a me perguntar se tudo que eu estava acumulando nos meus HDs externos realmente eram úteis. Músicas em MP3, Vídeos, Filmes, Documentos, anotações… e então comecei a limpar também meu computador deletando arquivos e programas instalados. Naquela época o espaço de armazenamento não era tão fácil como hoje e ter apenas o que realmente era importante fazia com que tivéssemos que escolher entre guardar vídeos ou outros arquivos importantes. Depois de fazer toda a faxina também no computador, eu conseguia desfrutar do vazio, da tela branca e do espaço que aquilo me trouxe. Enfim, a paz mental.

Essa sensação de serenidade e organização refletiu nos meus estudos. Lembro-me que era uma época em que eu consegui me dedicar muito mais aos estudos e consegui um desempenho nunca tido antes. Eu não tinha distrações. Usava, no início, o OneNote pra anotações de aulas, FoxitPDF para ler e anotar os textos e não usava absolutamente nada no papel. Lembro-me de ir pra Universidade apenas carregando o meu celular, carteira e meu NetBook (quem se lembra desse pequeno?). Quando visualizo aquela época, consigo lembrar da sensação dos estudos, do espaço mental, da serenidade e dos meus pensamentos focados apenas no que interessava no momento.

Minha escrivaninha não tinha nada além do meu computador, meu mouse, um pequeno estojo e um caderninho pequeno, o qual servia de caixa de entrada. Todas as minhas memórias, estudos, aulas e planejamento estavam guardados em bits de forma organizada.

Então eu saio desse devaneio do passado e volto à minha realidade hoje e vejo o quão afogada estou em meio a canetas, caderninhos, fichários, planners, marca-textos, livros e mais livros… eu sequer tenho espaço para respirar enquanto escrevo este texto, embora a tela do FocusWriter me conceda uma visão de paz. É verdade que ter voltado a escrever no papel me trouxe muitos benefícios, ainda mais em relação ao foco no que eu estou fazendo no momento, mas será mesmo que foi por conta da mudança pro papel? Pois eu tinha esse mesmo foco antigamente, com tudo no digital…

Então eu me dou conta de que não é exatamente isso, papel versus digital, mas sim as redes sociais.

As Redes Sociais

Eu talvez tivesse Instagram naquela época, mas o uso era totalmente diferente. Whatsapp? Talvez também. Twitter, email, e tantas redes sociais com feeds que nos fazem querer entrar pra ver se algo aconteceu… não, não tinha isso. Quando eu publicava um post no Vida Minimalista, divulgava em algumas redes sociais, mas era tudo mais lento. Os comentários do blog chegavam por email e eu não me lembro de abri-los no celular, mas sim, no computador. Acompanhava as atualizações dos blogs amigos por meio do Feedly, que tenho até hoje, mas fazia questão de me sentar diante do computador e reservar aquele momento apenas pra ler com calma e escrever comentários. Não tinha pressa.

Hoje, quando olho pro ícone do Instagram instalado no meu celular, quase não tenho mais vontade de clicar. Perdi a conexão em produzir conteúdo. Em filmar trechos da minha vida, em falar. Queria publicar algumas fotos legais da natureza, do meu cachorro, de um passeio… mas com qual finalidade? Em um avalanche de produtores de conteúdo que ganham dinheiro com seus cursos, lives, fórmulas de lançamentos (e isso não é errado!), eu só queria um pouco de paz, de silêncio, de calma. Queria ver mais pessoas compartilhando suas vidas, sem me empurrar um serviço. Me inspirar com alguém que não me ofereça cupom no café que acabou de mostrar. Também mostrar um pouquinho mais da minha rotina sem sentir que estou inadequada ali, que é um ambiente o qual eu não pertenço mais. Sei lá, talvez eu simplesmente não pertença. Ou talvez eu deva adotar novamente o minimalismo digital e filtrar ainda mais minha presença nas redes e, principalmente, o que eu consumo.

Algumas perguntas que estou fazendo a mim mesma (e que podem te inspirar):

  • Eu preciso mesmo ter todos esses apps instalados no meu celular?
  • Quais programas de notas estou usando? Será que não devo escolher apenas um e concentrar tudo nele, em vez de ficar sempre em busca do perfeito, espalhando minhas informações por aí?
  • Quanto aos apps que uso pra fazer a gestão da minha vida, tenho como fazer backup das minhas informações e migrar pra outro facilmente se um dia sair do ar?
  • Qual o meu mínimo viável pra que eu consiga manter uma rotina de estudos, leituras e anotações no computador/celular?
  • De quantos cadernos e fichários eu realmente preciso? Posso guardar os outros em uma caixa pra usar depois, quando estes que escolhi acabarem?
  • Eu preciso MESMO voltar ao papel e evitar o uso do digital?
  • O que eu posso manter no papel e o que eu posso manter no digital?
  • Eu preciso compartilhar a minha vida no Instagram?
  • Eu me sinto confortável com todos que me seguem no Instagram ou há algumas pessoas que sempre me acompanham e que eu me sinto mal?
  • Eu me sinto inspirada ou ansiosa quando consumo conteúdo de quem eu sigo? – pensar um por um.
  • Quais serviços na internet estou pagando assinatura? (fazer uma lista). – quais posso cancelar?

Bem, estas são algumas perguntas sobre as quais vou refletir neste momento e achei que seria útil compartilhar com vocês também. O que vocês acham disso tudo? Sei que escrevi sobre diferentes temas por aqui, mas acho que todos convergem para uma única direção: simplificar a vida analógica e a digital. Deixe aqui nos comentários seus pensamentos sobre o assunto. Ficarei feliz em lê-los.